“O Grande Veleiro” segue ancorado em Maceió apresentando vida e obra de Bispo do Rosário


Iranei Barreto

04/08/2017 13h23

Se alguém te contasse que uma das maiores referências da artecontemporânea brasileira viveu por meio século em instituições psiquiátricas eque se quer tinha noção que o resultado do seu trabalho um dia seriaclassificado como arte, você acreditaria? Vamos lá então, a história é bemverdadeira e estamos falando do artista plástico Arthur Bispo do Rosário. Aquiem Maceió, na Galeria de Arte do SESC Centro, atracou a mostra itinerante “OGrande Veleiro”, que permanece até 11 de agosto apresentando a vida e obradeste sergipano de Japaratuba.

Para quem ainda não conhece essa história, vamos adiantar o final, as obrasde Bispo do Rosário conseguiram sim atravessar os altos muros dasinstituições psiquiátricas e obtiveram o devido reconhecimento nacional einternacional. Mas, vamos ao começo da história!

Arthur Bispo do Rosário Nasceu em 1909. Era filho de carpinteiro. Apaixonadopelo mar, ingressou na Marinha em 1925. Foi também no mar que descobriusua segunda paixão: o boxe. Uma coisa inviabilizou a outra e Bispo foi expulsoda carreira militar. Do pugilismo foi afastado devido a um acidente que feriugravemente seu pé.

Depois do acidente, continuou no Rio de Janeiro, trabalhando como caseiro doadvogado José Maria Leone até que em 22 de dezembro de 1938, aos 29anos, Bispo do Rosário teve seu primeiro surto. Conduzido por um imaginárioexército de anjos se apresentou na igreja da Candelária aos padres comoincumbido de “julgar os vivos e os mortos”. “Ele se convertia na figura deJesus Cristo, mas acabaria sob o domínio da psiquiatria”, ressaltou a escritoraLuciana Hidalgo no texto “As artes de Arthur Bispo do Rosário”. Internado noHospital Nacional dos Alienados foi diagnosticado como esquizofrênico-paranóico e transferido para a Colônia Juliano Moreira, hospício na épocaconsiderado “fim de linha”. Dos mais agitados, acabou ficando isolado.

E foiNessas fases de isolamento que a arte brotou.Em 1967, Arthur Bispo do Rosário recebeu a segunda e grande "missão" dereorganizar todas as coisas existentes na terra para a sua reapresentação no"Dia do Juízo Final". E por 07 anos consecutivos construiu suas obras noconjunto de celas-fortes do Pavilhão 10, na Colônia Juliano Moreira. Aprodução de Arthur Bispo do Rosário durou 50 anos dentro Juliano Moreira eviabilizou discussões sobre arte e loucura, identidade e territórios, tanto nocampo das artes quanto na psicologia e na sociologia, através da literatura,com a biografia produzida pela escritora Luciana Hidalgo.

Segundo pesquisas realizadas pelo crítico de artes, Frederico Morais, a partirda década de 60, Bispo passou a produzir objetos com diversos itens oriundosdo lixo e da sucata que, após a sua descoberta, foram classificados como artevanguardista e comparados à obra de Marcel Duchamp. Entre os temas,destacam-se navios (tema recorrente devido à sua relação com a Marinha najuventude), estandartes, faixas de misses e objetos domésticos.

A sua obra mais conhecida é o “Manto da Apresentação”, que Bispo deveria vestir no diado Juízo Final. Bordados no manto estão os nomes das pessoas que elejulgava merecedoras de subir aos céus – mulheres, em sua esmagadora maioria.

Em 1982, o Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro expôs algunsexemplares do universo de Bispo numa coletiva reunindo presidiários, menoresinfratores e idosos, intitulada “À margem da vida”. Bispo do Rosário faleceu em1989, ano em que teve sua primeira individual – “Registros de minha passagemna terra”. Os trabalhos do artista não apenas transpuseram os muros dohospital psiquiátrico, como chegaram inclusive na prestigiada Bienal de Venezae em vários museus espalhados pelo mundo. O sergipano também deu nomeao Museu Bispo do Rosário Arte Contemporânea, situado dentro do InstitutoMunicipal de Assistência à Saúde Juliano Moreira.

Exposições – Atualmente duas exposições itinerantes promovidas pelo SESCsobre Bispo do Rosário percorrem o Brasil: “Arthur Bispo do Rosário: A AlgunsCentímetros do Chão”, que está percorrendo o interior paulista pela primeiravez com obras originais do artista. E a mostra “O Grande Veleiro” que segueem cartaz aqui em Maceió e teve início na Unidade Centro do Sesc Aracaju.Em seguida, entre agosto e setembro, estará na Escola Sesc de Ensino Médio,no Rio de Janeiro, e depois, entre outubro e novembro, no Centro Cultural SescParaty. Em 2018, a exposição ainda circulará por outras cidades brasileiras, aserem definidas.

A mostra “O Grande Veleiro” é interativa, conta com jogos e obras que podemser tocadas pelo público e que remontam à trajetória de Bispo do Rosário. Aimagem do veleiro, que dá nome e é bastante marcante em toda a exposição,remete aos anos em que ele atuou na Marinha Brasileira ,quando se mudou deSergipe para o Rio de Janeiro, em 1925.

A exposição ganhou em Maceió oficinas diárias de bordado do Grupo BordAzul – bordadeiras do Litoral Norte; exposição fotográfica resultado de atividadesterapêuticas do Caps Maceió; atividades como contação de histórias, comDamiana Melo e bate-papo com o Prof. Dr. Severino Alves de Lucena Filho,lançamento do livro “Festa Junina em Portugal: Marcas culturais no contexto defolkmarketing”. A montagem tem assinatura de Alice Barros e Robertson Dorta,a organização ficou por conta da analista em Artes Visuais do SESC, KelcyFerreira, e mediação de Álvaro Henrique. As visitas poderão ser feitas desegunda a sexta, das 12h às 18 horas. Entrada gratuita.

Texto: Iranei Barreto 

“Os doentes mentais são como beija-flores, nunca pousam, ficam a 2metros do chão,” Arhtur Bispo do Rosário.



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