A Playboy e o “nu normal”


Janu

15/02/2017 04h00

Fundada em 1953, na boa época dos ternos, cadillacs e charutos, a Playboy, no finzinho de 2015, decidiu parar de publicar fotografias de mulheres nuas, alegando que elas se tornaram ultrapassadas por conta da grande quantidade de pornografia grátis na internet - onde sites como o Xvideos tomaram a atenção dos apreciadores do voyeurismo (ou milhares de outros que liguem duas ou mais palavras chaves safadinhas que resultem em um fetiche estranho como suruba de velinhas, cachorros com asiáticas ou esposa “traindo” com o corno filmando - que geraria outro debate, quando se pensa que se ele está filmando, então é algo consentido, não é bem uma traição, certo? Ok, mas esse papo de corno online tá fugindo do assunto.

(Sarah McDaniel, modelo capa da primeira Playboy sem nu, em 2016) 

Tudo tem um início.

A Playboy surgiu com a proposta que durante tanto tempo era sua marca: glamour. Nessa época não existia uma revista centrada no gosto do bom homem dos anos 50. Haviam publicações sobre ternos, publicações sobre cadillacs e publicações sobre charutos - mas nenhuma que juntasse tudo isso e mais uma coisa que era de interesse da maioria dos homens: mulheres. E pra ser de combo: nuas.

Foi com essa prerrogativa que o jovem Hugh Hefner, com seus 27 anos, imaginou uma publicação perfeitamente voltada aos jovens adultos masculinos que revolucionou o universo das revistas. Arrumou 500 dólares emprestado e pagou pelos direitos de fotografias que a deusa Marilyn Monroe havia feito para um calendário no início da sua carreira. Arthur Paul foi o artista responsável pela brilhante logo em formato de coelhinho que hoje é moda em tatuagens de virilhas, ombros e cóx.


A deusa Marilyn Monroe foi a primeira capa da Playboy.

E então tudo começou. Em pouco tempo se espalhou pelo mundo. Um material bem feito, repleto de boas informações e pode-se até dizer que foi a verdadeira culpada dos jovens que a tiveram  passarem tanto tempo no banheiro - pois a Playboy não era uma como uma Sexy, que você levava pro “banho” e acabava o serviço em 7 minutos. Com a Playboy tu ia pro banheiro doido pra salientar as fotos da Feiticeira e 28 minutos depois estava lá com o dito cujo em repouso na mão, lendo sobre modelos de mesas de sinuca e doido pra ler as piadas no final da revista.

Complexo da caretice.

Nesses bons tempos de caretice e conservadorismo da década de 10 do século XXI, a circulação da revista caiu de 5,6 milhões em 1975 para cerca de 800 000 nos anos recentes e  também virou alvo de críticas de mulheres, que pedem o fim de uma prática que muitos veem como ofensiva e degradante. Influenciou diretamente no Brasil que parou de publicar a revista no final de 2015 e só voltou em abril de 2016.


Todo período de transição é situado numa briga de extremos e o ponto onde se encontram é onde resultará o futuro que vivemos. Eu pessoalmente sempre achei uma grande forma de Woman Power existir uma revista onde mulheres empoderadas e donas de si, muito bem pagas em sua maioria, se exibiam de forma artística - nas capas do Brasil só as vezes, e principalmente menos quando ex-bbb´s passaram a ser figurinhas marcadas e sem muito hype ou novidade.


Talvez a transformação total aconteça quando algum CEO da empresa entenda uma coisa: a playboy não é mais uma revista só para homens. Em 2017, um ano depois de “cancelar o nu por ele estar banal”, ela volta com a campanha “nu é normal” - e dessa vez apostando um pouco mais no amadorismo bem feito, deixando o photoshop um pouco de lado, numa linda capa com a modelo Elizabeth Elam.

           Elizabeth Elam - Capa de março/abril 2017.

 

O futuro que já é presente


E se ela, a empresa, se basear nas “pesquisas” online, como exemplo do Brasil que é o país que mais procura “trans” no site RedTube (e eu tenho uma leve intuição que 70% destes são aqueles que bestificam publicamente a opção sexual de cada um, virando um machão pós-gozo ao assistir um vídeo shemale) e lance uma capa como a francesa Vogue, com a modelo trans cearense Valentina Sampaio que vem sendo muito bem comentada no mundo.

(Valetina Sampaio, cearense e primeira modelo trans na capa da Vougue)


Aos trancos e barrancos vamos nos acostumando ao novo mundo, onde os pudores vão sendo quebrados e os tabus minimizados. E pelo jeito que as coisas andam, que esse novo mundo se ajeite logo.



Compartilhe
comentários