A transposição do ódio


Marcio Santana

24/11/2019 16h04

 

 

Um sertanejo inclemente, vendo as tristezas de uma sofrida e agoniante vida, olha para aquelas crianças, suas crianças, e sabe que tudo o que poderia ser feito foi feito, e que a partir daquele momento só a misericórdia de Jesus poderia amenizar todo aquele sofrimento e angústia.

E bem ali, logo na sua frente, não poderia jamais acreditar que todo aquele aparato construído pelo capacitado trabalhador, que nunca teve conhecimento de tal situação, iria se transformar na maior e esperançosa obra beneficente que poderia já ter existido.

“Meu pai eterno, ajudai-me, fazei com que esse cimento, tão importante e bonito, volte a trazer a alegria da água, o fim da agonia de não ter o que beber, o fim da tristeza do gado morrendo, da plantação estalando nesse sol escaldante”.

E sem nunca, em momento algum deixar de acreditar na alegria da vida, continua a olhar para aquela obra de transposição, hoje completamente abandonada, sonhando com dias melhores, sonhando na boa ação dos homens de bem, sonhando na colheita, sonhando em mim, que me vejo na obrigação de tentar através dessas míseras palavras, tocar os corações dos abutres e miseráveis “representantes” do povo.

É muita tristeza, esquecimento, decepção, medo, vingança e perseguição à um povo que nunca soube o que é alegria, mas que também, nunca perdeu as esperanças de um dia poder voltar a ser gente, como foram a alguns anos atrás.

Não é possível que todo esse ódio incrustado nas artérias do “salvador” dessa legião de incapazes, não se desgrude dessas paredes podres de ódio eterno e seja transformado em benevolência. Que todo o sofrimento dessa gente humilde e trabalhadora, não signifique apenas uma certeza de votação. Que a fotografia da miséria, não tenha tocado o inoxidável membro propulsor de sangue desses elementos sinistros e covardes, que teimam em apenas olhar para seus umbigos sujos e herniados, e o restante que se lasque na baixa da égua.  

Para alguns, o momento é de preocupação com o verão que já chegou no sertão, para outros, simplesmente é mais uma estiagem que certamente vai ser tirada de letra pelos verdadeiros heróis dessa espelunca sem dono.

Não é possível acreditar que picuinhas e disputas políticas possam gerar tanta indiferença para com os menos favorecidos. Deixem essa porra de orgulho besta de lado, pensem nas vidas que precisam apenas de uma assinatura, de um reconhecimento. Façam uma trégua com o escancarado movimento do ódio e tentem, pelo menos uma vez na vida, fazer algo de bom para o ego de vocês, se é que vocês o possuem.

A transposição do Rio São Francisco para o sertanejo, foi a esperança de um reconhecimento de vida, pois nem eles mesmos acreditavam que estavam vivos, significava cidadania, se sentiam úteis, plantavam, criavam, produziam e tinham a dignidade de serem reconhecidos em programas sociais, que queiram ou não, amenizavam bastante todo esse sofrimento. 

 



Compartilhe
comentários