Natal da hipocrisia


Marcio Santana

05/01/2018 19h50

 

Final de tarde, saio para dá uma conferida - de bicicleta -  na ornamentação natalina aqui mesmo pela orla, pois, como sempre, é a única região que recebe tal tratamento. Entre um buraco e outro na ciclovia, observo a alegria dos turistas, vendedores, pescadores na balança, atletas de fim de semana, e ali vou reencontrando amigos de infância, companheiros de lutas, políticos aposentados (esquecidos), em rodas de conversas, ou seja, um cenário mais que interessante para ser observado e admirado.

No trajeto, próximo as tapiocarias e feirinha de artesanato, que insistem em explorar não só os turistas como também os “nativos” dessa província, topo com duas figuras bem distintas. O primeiro trata-se de um senhor magro, mas com uma barriga enorme (famosa barriga de lama), vestindo uma fantasia de Papai Noel, dançando alegremente forró na calçadinha, para estimular as pessoas à pararem para consumir o caríssimo cardápio e consequentemente, ganhar, no final do expediente, como pagamento, um mísero “rango feito”, ou seja, uma tapioca com um café.

O outro, para a minha surpresa, e ao mesmo tempo decepção, é um velho amigo de infância, gente de primeira qualidade, honesto, bom pai de família, cumpridor de seus deveres, e ali, triste de camisa vermelha, sentado cabisbaixo num banco de alvenaria em frente a balança de peixe da Pajuçara, fez com que eu parasse e fosse ao seu encontro para, pelo menos, tentar dar um ânimo de alegria, naquele que sempre procurou ajudar e confortar a todos os amigos e até mesmo desconhecidos que o procuravam na CARHP.

Só precisou de poucos minutos de conversa para saber que eu estava diante de um “ex-funcionário público”, que assim como eu, foi demitido pelo governo, sem justa causa, mesmo estando de férias, sem aviso prévio, mesmo sendo dirigente sindical, mesmo estando com os depósitos do FGTS totalmente desatualizado, e o pior de tudo, mesmo faltando apenas alguns meses para se aposentar.

Aí eu pensei, que porra de palavras de estimulo poderiam ser ditas diante de tal sacanagem, diante de tanta falta de sensibilidade, diante de tanta covardia e incompetência administrativa de uma equipe de miseráveis. Me despedi, lhe desejei um pouco de paz nesse natal, subi em minha bicicleta e peguei o caminho do beco.

Impressionante como esse período natalino consegue transformar o espirito das pessoas. O natal pode não significar nada para alguns, mas com certeza traz uma atmosfera muito amorosa e gratificante para muitos. Sinceramente eu adoro este período, adoro estar com a família, ao lado de minha mãe, meus irmãos, esposa, filhos, dos amigos, daquela maravilhosa mesa farta e deliciosa, mas realmente o que dizer em tal situação?

Voltei puto da vida para casa, pensando a respeito das sacanagens que acontecem nessa vida. Das hipocrisias de muitos que se acostumaram com tanta safadeza e vivem dela. Pensei nos milhares de alunos que estão sem a merenda escolar por causa dos desvios de verbas em seus municípios. Nos pacientes sem remédios, sem médicos, sem leitos. No desvio de verba na construção da adutora, enfim, nas pilantragens e covardias feitas por elementos que se dizem humanos, mas que na verdade não passam de verdadeiros animais escrotos, que com certeza neste natal mereceriam sim, ganhar de presente, uma caixa cheia de vergonha, honestidade, humanidade, gratidão e o mais caro de todos os presentes, o respeito da população e de seus filhos. 



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