Interior

Mãe de prefeito agressor de mulheres articula vandalismo em Maribondo


Carlos Alberto Jr.

14/07/2017 09h03

Os cerca de 14 mil habitantes de Maribondo, município do Agreste alagoano, estão há cerca de 15 dias oficialmente sem prefeito, após o afastamento de Leopoldo Cesar Amorim Pedrosa (PRB), preso no dia 28 de junho, em cumprimento um mandado de prisão expedido pelo presidente do Tribunal de Justiça de Alagoas (TJ-AL), desembargador Otávio Leão Praxedes, por agressões físicas contra a esposa e a sogra, de identidades não divulgadas.

Na segunda e na quarta-feira passadas, alguns funcionários públicos, familiares, amigos e populares, liderados pela mãe do prefeito afastado, Leopoldina Amorim, realizaram atos pela liberdade do acusado de agredir mulheres. Na tarde do dia 12, mesmo em menor número, cerca de 150, eles chegaram a bloquear com pneus em chamas um trecho da Rodovia BR-316.

Desde ontem circulam em aplicativo de troca de mensagens, vários arquivos, em áudio e vídeo, nos quais fica evidente a participação ativa de Leopoldina Amorim. Num áudio atribuído a ela, a população para a prática de vandalismos, até que o filho seja solto. “A vida pessoal dele não interessa a ninguém. Ninguém deve estar criticando. Tem que protestar mesmo. Tem que ir pra rua, fazer vandalismo, mesmo”, incentivou.

Ainda na manhã de ontem, por mais uma vez, tentaram realizar outra manifestação na BR-316. Em fotos enviadas à reportagem, dois veículos, um deles uma caminhonete de propriedade do prefeito, cheios de entulhos e móveis velhos estariam sendo levados para as margens da rodovia. No entanto, a população não compareceu em número suficiente para nova interdição.

Num vídeo obtido pela reportagem é possível a mãe do gestor na última quarta-feira (12), à frente dos manifestantes dançando o jingle da campanha na rodovia enquanto pneus queimavam e um popular incitava a população ressaltando a honestidade do prefeito. Um dos fatos que mais chamou a atenção foi a presença de muitas mulheres entre os manifestantes. Algumas exibiam cartazes pedindo a liberdade de Leopoldo Pedrosa e elogiando sua conduta política e até mesmo pessoal.

Num outro áudio obtido pelo Jornal de Arapiraca divulgado em grupos de trocas de mensagens, uma moradora, que não terá a identidade divulgada, mostrou-se insatisfeita com os protestos. “Isso é um absurdo! Esse carro de som com a música de campanha do Leopoldo e a mãe dele dançando e fazendo algazarra junto com os funcionários deles. Agora preciso ir até Maceió para um compromisso e estou impossibilitada de seguir viagem”, disse.

O protesto de segunda-feira, também orquestrado pela mãe de Pedrosa ocorreu no intuito de aproveitar que a imprensa que estaria na cidade para cobertura de outro ato público realizado pela Câmara Municipal, para que a população pedisse medidas à Companhia de Saneamento de Alagoas (Casal), para solucionar a falta de água no município. 

“Eles estão fazendo isso, não é com medo da instabilidade no município, porém com medo de perder os cargos que ocupam dentro da Prefeitura”, afirmou a moradora Maria José Barbosa.

Uma das manifestantes, que afirmou ser a líder das manifestações, Anna dos Santos, disse que o município passou a viver outra realidade na gestão de Leopoldo Pedrosa. Segundo ela, os protestos têm como finalidades chamar a atenção da Justiça para a “fragilidade das provas que foram apresentadas”.

“Não queremos o Leopoldo na figura do marido, mas, sim, na função de gestor, aquele que deu um jeito na nossa cidade, resgatando a autoestima dos moradores de Maribondo. Pela Prefeitura daqui, já passaram médicos, professores, doutores, mas nenhum deles deu jeito. Já o Leopoldo resolveu os problemas, pagou os salários atrasados e mudou a cara da cidade”, afirmou Anna dos Santos. 

Uma fonte ouvida pela reportagem, falou que, durante a última discussão com a esposa, as agressões foram tantas que ela chegou a ficar no chão, quase desmaiada. Por isso, a sogra do de Leopoldo Pacheco teria interferido na briga e acabou sendo agredida. “Se não dá mais para viver, conversem e separem. Querendo, ou não, ele é o prefeito da cidade e a vida pessoal acaba se envolvendo com a política”, disse o informante que não terá a identidade divulgada.

O VICE-PREFEITO

Em decorrência do afastamento do titular, o vice-prefeito, Sérgio Marques (PRTB) está acionando judicialmente a Câmara Municipal para que seja convocada uma sessão que o autorize a assumir interinamente a Prefeitura, ao menos até que a situação de Leopoldo Pedrosa seja resolvida.

Sérgio Marques informou que o Regimento Interno da Câmara prevê o prazo de 15 dias para que a sessão seja convocada, o qual se completou na última quarta-feira (12). As sessões no município acontecem sempre às segundas-feiras pela manhã. No entanto, uma extraordinária poderá ser convocada a qualquer momento. Porém, não há sinalização de que aconteça.

A Câmara Municipal de Maribondo é composta por nove vereadores. Desse total, oito pertencem ao bloco de apoio ao prefeito. Além disso, o vice-prefeito informou ao Jornal de Arapiraca que ele e o prefeito estão rompidos politicamente desde antes dos dois assumirem os mandatos em janeiro passado. Para ele, pelo fato do presidente da Câmara pertencer à base de apoio a Leopoldo, seja necessário acionar meios jurídicos para que a situação seja resolvida.

A reportagem tentou manter contato telefônico com o presidente da Mesa Diretora da Câmara Municipal de Maribondo por meio dos números pessoal e do Legislativo e, até a tarde de ontem, não obteve êxito. Fernando de Melo Ramos, o Fernando Militão (PPS), é da base aliada do prefeito Leopoldo Pedrosa.

Justiça se manifesta contrária à soltura do prefeito de Maribondo

O Ministério Público do Estado de Alagoas (MPE/AL), por meio do procurador-geral de Justiça, Alfredo Gaspar de Mendonça Neto, ajuizou ação penal, na segunda-feira (10), contra Leopoldo Pedrosa. A manutenção da prisão preventiva do gestor também foi mantida, assim como a perda do mandato dele. A denúncia responsabiliza o prefeito por agressões físicas contra a esposa e a sogra, crimes ocorridos em junho deste ano.

Mediante a gravidade e a comprovação das atitudes ilícitas cometidas por Leopoldo César Amorim Pedrosa, além de defender que ele permaneça custodiado no sistema penitenciário alagoano, o Ministério Público pediu a manutenção das medidas protetivas concedidas em favor das vítimas, assegurando-lhes a integridade física, já que existem registros de ameaças de morte.

Além disso, entende o procurador-geral de Justiça, ser a liberdade de Leopoldo Amorim um risco também para a instrução processual. “O Ministério Público é intransigente no cumprimento da lei. Em pleno século XXI não é concebível atitudes dessa natureza, repudiadas e enxergadas como monstruosas. Não tem outra opção, a nossa missão é a de garantir o respeito e a cidadania das pessoas e de fazer prevalecer a Justiça”, declarou Alfredo Gaspar.

O Ministério Público pediu a aceitação da acusação pelo Tribunal de Justiça e o prosseguimento do feito nos termos da legislação processual vigente. “Como efeito secundário da condenação, o pedido se estende à perda do cargo do denunciado junto à Prefeitura de Maribondo ou de qualquer outro cargo público que possa estar exercendo na ocasião em que ocorra a condenação”, finalizou a chefia do MPE/AL.

Leopoldo Pedrosa teve a prisão preventiva mantida pelo desembargador do Tribunal de Justiça de Alagoas (TJ/AL), João Luiz Azevedo Lessa. O pedido de reconsideração da defesa foi negado na terça-feira (11). Para o desembargador João Luiz, a conduta do prefeito, “além de ousada, revela uma ameaça à efetividade da Justiça, demonstrando a necessidade de uma intervenção mais severa, a fim de garantir a integridade física e psicológica das vítimas”, justificou.

Na primeira decisão do TJ, o presidente, desembargador Otávio Leão Praxedes, que manteve Leopoldo Pedrosa na prisão, a esposa do acusado foi “brutalmente agredida” pelo esposo, encontrando-se com várias lesões pelo corpo, confirmando as informações obtidas pelo Jornal de Arapiraca junto a uma fonte próxima da família. Ela prestou queixa à 2ª Delegacia Especializada de Defesa da Mulher, na qual prestou queixa e entregou à autoridade policial a arma de fogo do prefeito, sendo encaminhada para realização de exame de corpo de delito.

OUTRAS PRISÕES

Em 2008, Leopoldo Pedrosa foi preso em flagrante, acusado de porte ilegal de arma. Ele foi detido por agentes da Polícia Rodoviária Federal (PRF) em um posto de combustíveis da cidade e levado para a delegacia. O então vereador havia participado de uma solenidade de inauguração momentos antes da prisão e portava um revólver, calibre 38, quando foi abordado pelos policiais rodoviários.

Já em 2013, Leopoldo, na época ex-vereador, foi detido em Maceió por dirigir embriagado e portar documento falso. Leopoldo estava com a então companheira e uma discussão entre os dois dentro do veículo teria motivado os agentes a pararem o casal. O carro do político também foi apreendido.

Vice-prefeito Sérgio Marques (à esquerda), tenta assumir prefeitura. Foto: Arquivo pessoal


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