Polícia

‘Cristiano Matheus montou rede de laranjas’, afirma PF


Carlos Amaral
Fonte: Fonte: com Tribuna Independente

06/12/2017 09h23

O ex-prefeito de Marechal Deodoro, Cristiano Matheus, montou uma “extensa e complexa rede de laranjas” para ocultar patrimônio obtido de desvios de recursos de programas federais. Essa afirmação é do superintendente da Polícia Federal (PF) em Alagoas, Bernardo Gonçalves, em entrevista coletiva realizada nesta terça-feira (5) após deflagração da Operação Kali, segunda fase da Operação Astaroth, de julho deste ano.

Cristiano Matheus é investigado pela PF por desvios de recursos Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) e do Programa Caminho da Escola e Programa Nacional de Apoio ao Transporte Escolar (PNATE), na ordem de R$ 6 milhões.

“Até seu motorista particular foi usado no esquema. Ele era proprietário de uma sala comercial no Centro de Maceió, mas, segundo seu depoimento, ele não sabia que tinha isso em seu nome, adquirida em 2012. Depois ela foi trocada por outra no mesmo prédio. Essa nova sala foi colocada em nome de outra ‘laranja’ que depois repassou para o motorista. Então, o motorista passou a sala para um amigo do ex-prefeito, proprietário atual, e do apartamento em que o ex-prefeito morava, aquele da polêmica nas redes sociais”, relata Bernardo Gonçalves.

Ainda de acordo com a PF, o motorista, que não teve o nome revelado, possui um cargo em comissão na Secretaria de Estado da Cultura (Secult) desde fevereiro deste ano, comandada por Melina Freitas, ex-esposa de Cristiano Matheus.

“Eles nos disse que nunca deu um dia de serviço no estado”, completa Bernardo Gonçalves.

No Portal da Transparência Ruth Cardoso, o único servidor ingresso na Secult em fevereiro é Alan Otavio Silva dos Santos, cuja função é “Assessor Técnico” e de remuneração líquida em torno de R$ 1.600,00.

A assessoria de comunicação da Secult ficou de divulgar uma nota sobre o caso, mas isso não ocorreu até o fechamento dessa edição.

A reportagem também tentou contatar o ex-prefeito Cristiano Matheus, mas seu celular estava desligado.

OBSTRUÇÃO

Ainda de acordo com o superintendente da PF em Alagoas, Cristiano Matheus vem tentando obstruir o trabalho da Justiça.

Mesmo após a Operação Astaroth, segundo Bernardo Gonçalves, o ex-prefeito de Marechal Deodoro vem atuando para confundir as investigações passando alterando a propriedade de seus bens com outros “laranjas”. Até mesmo, de acordo com o delegado, Cristiano Matheus combinou depoimento com um sócio do Maranhão, também alvo da PF.

“Você pode até ficar calado, mas daí mentir em depoimento é ato claro de tentar obstruir a Justiça”, comenta Bernardo Gonçalves se referindo a valores de negociações em que o montante que conta em recibo está diferente dos depoimentos.

A PF pediu as prisões do ex-prefeito de Marechal Deodoro e mais 13 pessoas ligadas a ele. Dessas, cinco foram preventivas e nove temporárias e todas ratificadas pelo Ministério Público Federal (MPF). Contudo, o juízo da 2ª Vara Federal de Alagoas entendeu não haver a necessidade de prisão.

Mais de R$ 300 mil foram apreendidos

Durante o cumprimento dos mandados de busca e apreensão da Operação Kali foram encontrados na casa da proprietária de uma construtora, que tinha contrato com a Prefeitura de Marechal Deodoro, R$ 297 mil; cinco mil dólares e 14 mil euros, em espécie.

Valores apreendidos estavam na casa de uma proprietária de empresa contratada na gestão de Cristiano (Foto: Ascom/PF)

Tendo por base as cotações das moedas estrangeiras nesta terça-feira, o total de dinheiro encontrado foi de R$ 367.155,00.

“O valor do contrato dessa empresa com a Prefeitura, à época do ex-prefeito, era de R$ 14 milhões e foi essa empresa que pagou uma reforma no apartamento – que ele diz ser de seu amigo – no valor de R$ 104 mil, em 2014”, explica Bernardo Gonçalves.

Segundo apurou a reportagem, o dinheiro foi encontrado no apartamento de Lucilene Freire Peixoto, dona da FP Construções. Empresa e proprietária são alvo de investigação desde a Operação Astaroth.

SÓ À VISTA

Ainda de acordo com a PF, Cristiano Matheus realizava seus pagamentos sempre em espécie, muitas vezes através de terceiros, e sem constrangimento de usar recursos públicos.

“Ele pagou um serviço de móveis planejados, e isso consta no depoimento da dona da loja, em espécie, após ligar para o então secretário de Finanças de Marechal Deodoro, que levou até o local R$ 110 mil. O parto de sua ex-esposa foi pago pelo amigo, ‘dono’ do apartamento, no valor de R$ 4 mil, também em espécie. Isso foi confirmado pelo obstetra que fez o procedimento”, relata Bernardo Gonçalves.



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