Polícia

Após um ano e três meses crime de Cleciane permanece impune


Fonte: Redação

05/10/2018 10h29

Cleiciane Pereira da Silva, de 10 anos, desapareceu em junho do ano passado. O laudo da necropsia realizado no corpo da menina e divulgado nesta semana no Instituto Médico Legal (IML) de Arapiraca aponta causa da morte indeterminada, mas mostra que ela sofreu fraturas nas duas pernas, ferimentos que somados ao local onde o corpo foi encontrado podem indicar um possível atropelamento. O corpo foi encontrado no povoado Lagoa do Félix, na cidade de Igaci, em março deste ano, próximo à casa da avó da menina.
O exame de DNA que confirma que o corpo é da menina e que precisou ser testado cinco vezes, devido a problemas com o material genético. O corpo passou muito tempo exposto às intempéries, e isso prejudicou o material genético. A técnica disse ainda que agora um protocolo deverá ser seguido para concluir o processo de identificação. “A família será avisada, e a documentação, com todos os laudos, deve ser concluída em 15 dias”, concluiu.
O delegado Regional de Arapiraca, Igor Diego, não soube explicar quem ficou responsável por investigar o caso, uma vez que o delegado que presidia o inquérito do caso, Thiago Prado, foi transferido para a Delegacia Especial de Investigação e Captura de Maceió.
Cleiciane desapareceu doo Residencial Agreste, em Arapiraca, onde morava com a família, no dia 4 de junho de 2017. Testemunhas afirmavam que ela deixou o local acompanhada de um adulto, mas a versão não foi confirmada pela polícia.
 A ossada de menina foi encontrada nesta semana. Em um dos boatos divulgados, áudios diziam que a menina fugira com um suposto namorado. Sobre esse boato, a mãe de Cleciane nega que a menina tenha algum tipo de envolvimento com alguém. “Quando não estava na escola, ficava em casa. Ela também gostava de brincar na vizinhança”, afirmou.
O sofrimento pelo desaparecimento da pequena Cleciane não é restrito à mãe. O filho mais velho, V.P.S, de 11 anos, também sente a falta da irmã. “Eu sinto falta dela todo dia. A gente gosta de brincar, às vezes a gente briga, mas eu gosto dela. É a minha irmã”, falou o garoto.

O padastro

Cledja Pereira, a mãe, e os três filhos moram no Residencial Agreste, o no Povoado Fazenda Velha, em Arapiraca. Na casa, também mora o atual esposo da  mãe, José Cláudio. O casal está junto há mais de cinco anos. Segundo os vizinhos, José Claudio passou a integrar a lista de suspeitos pelo desaparecimento da menina. Ele foi chamado à Delegacia da Criança e do Adolescente de Arapiraca algumas vezes e tratado oficialmente como suspeito pela Polícia Civil, embora Cledja não acredite nessa hipótese.
“Ele nunca sequer bateu nos meus filhos. A Polícia [Civil] está dando pressão na gente, como se a gente fosse culpado pelo sumiço dela. No domingo de manhã, ele [José Claudio] foi até a Vila Fernandes comprar umas coisas que eu pedi. Quando ele voltou, a gente já estava procurando por ela. Não tem como ter sido ele. Os horários não batem”, frisou Cledja.

Pai ausente

Cledja Pereira disse que o pai dos dois filhos mais velhos, Taciano Pedro da Silva, sempre foi au sente na educação e criação das crianças. Há alguns anos ele reside em Santa Catarina. Ela disse que estranhou quando soube que ele poderia levar a culpa pelo desaparecimento da filha. “É tudo mentira. Ele nunca quis os filhos. Estava de resguardo [de Cleciane] quando ele me abandonou dizendo que não queria os meninos. Nunca pagou nem pensão”, falou ao mostrar o processo que move contra ele. Cledja apresentou o processo de número 0706815-05.2016.8.02.0058, que ela move no Tribunal de Justiça de Alagoas desde o ano passado. De acordo com o documento, Taciano Pedro está com pedido de prisão em aberto por causa do não pagamento das pensões alimentícias dos dois filhos.
Cledja Pereira afirmou que a mentirosa não é ela. “Ele quer me colocar como suspeita por causa do processo. Ele abandonou os filhos. Nem ele e nem a mãe dele podem me julgar. Sou pai e mãe e quero que eles tenham orgulho de mim. Não maltrato meus filhos. Sou pobre e faço até o que não posso por eles”, finalizou.
Raimundo Ferreira desmentiu a versão apresentada pela mãe de Cleciane de que houve tortura em José Cláudio. “Sabemos como interrogar e não usamos de violência com ninguém. Achamos estranho o comportamento dela e dele. Para nós, ele é muito frio e ela também. Também estranhamos que as informações falsas sobre o paradeiro da menina sejam passadas primeiro a ele”, revelou. Vizinhos e pessoas próximas da família e da menina também foram ouvidos pela Polícia Civil. “É como se existisse uma lei de silêncio por lá; ninguém fala muito. A única que abriu o jogo foi uma professora da menina. Ela passou várias informações importantes e disse saber que o casal costumava brigar e que estaria em crise naqueles dias que antecederam o sumiço”.

Último a ver

O Jornal de Arapiraca conversou com o vendedor autônomo José Ailton, que reside em frente à família. Ele conversava com a mãe da menina, com alguns outros vizinhos, no momento em que a reportagem chegou ao local. Ele revelou que foi o último a ver a menina antes do sumiço.
José Ailton disse que chegava em casa por volta das 10 horas da manhã, quando viu Cleciane sentada na calçada quase em frente à residência dele. “Ela estava encostada no poste. Brinquei com ela dizendo que fosse pra casa. Ela não respondeu nada e entrei em casa. Não percebi nada de estranho [com ela]”, revelou. 
Apesar de morar quase em frente à família e da movimentação dos moradores que participaram das primeiras buscas, José Ailton afirmou que só veio saber do sumiço pela noite quando sua esposa chegou em casa e falou sobre o assunto. “Nunca vi nada de estranho. Eles sempre vão a minha casa assistir filmes. São crianças tranquilas”, falou ao se referir à menina Cleciane e ao irmão dela. Um dos fatos que chama atenção nesse caso é que nenhum outro morador da rua ou dos entornos entorno revelaram ter visto a menina, sozinha ou acompanhada naquela manhã. “Todo mundo aqui fica com as portas fechadas, mesmo nos finais de semana. Acho difícil que alguém tenha visto mesmo”, disse o vizinho.  Cledja Pereira ainda mostrava esperança em rever a filha com vida. “Eu aqui não tenho mais paz. Estou à base de remédio. Só Deus sabe, mas acho que ela se perdeu em algum lugar. Espero encontrar minha filha com vida. Estou preocupada se ela come, se dorme, se alguém está cuidando dela. Quero minha filha de volta”, concluiu.

 

 



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