Polícia

Fé abusada – TJ/AL condena padres acusados de pedofilia


Fonte: Tribuna Independente / Carlos Amaral e Wellington Santos

16/10/2018 10h12

Arapiraca, ano de 2001. Fabiano, de 12 anos de idade, se torna coroinha do monsenhor Luiz Marques Barbosa, na Igreja de São José. Entusiasmado com a atividade que escolheu, perto de Deus, o adolescente auxilia o padre nas atividades clericais. Alguns meses depois, o senhor – então com 76 anos de idade – pega em sua genitália e tenta beijá-lo à força. O garoto, pasmo com a atitude do religioso e a força física de homem adulto, não consegue reagir. Os abusos sexuais seguem por mais algum tempo, na casa paroquial e na sacristia. Transtornado, Fabiano resolve deixar de ser coroinha. Colegas pedem que ele volte a auxiliar monsenhor Luiz e, dois meses depois, o garoto volta à Igreja de São José. Passam-se seis meses e o padre volta a abusar do menino. O medo das ameaças do padre e seus funcionários fazem com que Fabiano nada relate aos pais.

Depois de alguns anos, outro religioso passa a abusar de Fabiano. Dessa vez, padre Edílson Duarte. Por um determinado período de tempo, os dois sacerdotes molestaram o garoto. O segundo abusador atacou o menino na paróquia Nossa Senhora do Bom Conselho e na casa da irmã do padre, que o obrigou a fazer sexo oral.

Ambos os religiosos davam dinheiro ao menino, como forma de manter a relação criminosa. Os atos eram regados, em muitas vezes, à bebida alcoólica. Monsenhor Luiz punha o pênis de Fabiano num copo de bebida e a ingeria. Edílson chantageou o garoto sobre a relação com o monsenhor para ter as relações.

Esse é o resumo do relato de Fabiano da Silva Ferreira, hoje com 29 anos, casado e pai de uma menina. Em seu depoimento à polícia e à Justiça, ele conta que ficou deprimido e cogitou suicídio. Ele, assim como Cícero Flávio e Anderson Farias, só decidiu revelar tudo após a gravação de um vídeo em que os assédios dos dois padres – e de monsenhor Raimundo Nascimento, morto em 2014 devido a complicações de um Acidente Vascular Cerebral (AVC) – foi exposto, no início de 2010.

Vista panorâmica da capital do Agreste; ao fundo a torre em formato de cruz da Catedral, um dos principias símbolos da cidade (Foto: Sandro Lima)

O caso que ganhou repercussão internacional tramita a passos lentos no Poder Judiciário, cuja conclusão nas instâncias alagoanas só ocorreu em agosto deste ano, oito anos após o início do inquérito policial e sete após a condenação na 1ª Vara de Arapiraca, em 18 de dezembro de 2011.

O processo contra monsenhor Raimundo Nascimento foi extinto devido a sua morte, mas os demais sacerdotes foram condenados. Monsenhor Luiz Marques Barbosa foi condenado a 21 anos de reclusão e pagamento de multa; Edílson Duarte a 16 anos e quatro meses de reclusão mais multa.

O inquérito policial foi concluído em 27 de abril de 2010, cuja autoria é das delegadas Bárbara Arraes Alves Lima Monteiro e Maria Angelita Romeiro de Lucena e Melo. O que motivou sua abertura foi uma reportagem do SBT, no programa Conexão Repórter, do jornalista Roberto Cabrini.

Os vídeos dos padres mantendo relações sexuais com os coroinhas foi exibido no programa, assim como fala de advogados indicados pela Diocese de Penedo – responsável por Arapiraca – ameaçando os jovens a se livrarem do filme sob risco de serem processados por calúnia.

Antes mesmo da reportagem na emissora nacional, o vídeo dos padres e os coroinhas se espalhou pela internet e chegou até mesmo ser vendido por camelôs em todo o estado. Foi daí que o comerciante Alterman Lima o levou a São Paulo e o mostrou à produção do Conexão Repórter.

Em 18 de abril de 2010, monsenhor Luiz teve sua prisão preventiva decretada, mas no dia 20 ela foi relaxada para domiciliar. Em junho a prisão foi revogada.

Somente em 3 de janeiro de 2011, quase nove meses depois do término do inquérito policial, o Ministério Público Estadual (MPE) ofereceu denúncia contra os padres. Contudo, para o início da audiência de instrução foi necessário esperar até 8 de junho. Interrompida duas vezes, sua conclusão se deu em 2 de agosto.

As defesas alegaram que provas contidas no processo eram ilícitas porque foram coletadas por meio de invasão de domicílio, violação de privacidade e sem o consentimento dos padres. O juiz João Luiz Azevedo Lessa rejeitou os argumentos. Ele alegou que direito à intimidade não é absoluto e que a gravação foi feita por um dos interlocutores dos atos ilícitos.

A defesa de Edílson Duarte alegou que o religioso teve seu direito de defesa cerceado por perda de prazos processuais, argumento negado pelo juiz. Suas alegações finais se deram em 12 de dezembro de 2011.

A ação penal tramita em segredo de Justiça porque Fabiano Ferreira, Cícero Flávio Barbosa e Anderson Farias eram menores de idade quando os fatos ocorreram, mas a reportagem da Tribuna Independente teve acesso, com exclusividade, à boa parte dos autos processuais.

Os recursos das defesas tiveram seu início de trâmite na Câmara Criminal do Tribunal de Justiça de Alagoas (TJ/AL) somente em 2014. No dia 17 de dezembro daquele ano, o relator do processo, desembargador Otávio Praxedes, negou os recursos. Em janeiro de 2015, a defesa de monsenhor Luiz Barbosa impetrou embargos de declaração. Em março, no dia 19, o então presidente da Câmara Criminal, desembargador José Carlos Malta Marques, encaminha os embargos ao relator, em férias quando estes foram impetrados.

Daí, a Câmara Criminal passa a analisar o caso, mas o julgamento foi parado mais uma vez porque o então desembargador James Magalhães adoeceu. O processo foi retomado após o falecimento do desembargador, em 2016. Caso só foi concluído no TJ/AL em agosto deste ano e a decisão do primeiro grau foi mantida.

As defesas impetraram recursos no Supremo Tribunal Federal (STF) e no Superior Tribunal de Justiça (STJ) e não há prazo para seus julgamentos.

ADVOGADOS

A reportagem da Tribuna ouviu Edson Lucena Maia Neto e Thiago Mota, advogados de Luiz Barbosa e de Edílson Duarte, respectivamente. Nenhum deles quis dar detalhes do processo por ele tramitar em segredo.

Ambos os sacerdotes foram demitidos do estado clerical. Isso quer dizer que eles não são mais padres, contudo não foram excomungados. Excomunhão é uma punição  utilizada para se retirar ou suspender um crente de uma filiação ou comunidade religiosa.

“Edílson está tentando viver a vida dele. Temos plena certeza de que houve injustiça muito grande no Tribunal, causada, principalmente, por causa do abalo midiático desse processo. E no caso dele, inclusive, houve voto pela tese defensiva, corroborando com a absolvição”, comenta o advogado Thiago Mota.

A reportagem tentou conversar com o ex-padre, mas seu advogado adiantou que ele não falaria com a Tribuna.

“Sempre quando esse caso vem à tona a situação é bem vexatória para sua família. Até o momento ele [Edílson Duarte] não quer falar. Acredito que ele ainda está, emocionalmente, muito movido com isso. Não é fácil para um inocente ser levado por uma acusação tão séria. A vida dele acabou porque ele era apaixonado pelo sacerdócio”, diz Thiago Mota.

No mesmo tom do colega, Edson Lucena Maia Neto ressalta a condição de saúde de Luiz Barbosa, hoje nonagenário.

“Monsenhor Luiz está com 93 anos de idade, ficou internado dois meses, e com suspeita de Alzheimer”, resume o advogado.

Segundo o processo, Cícero Flávio Vieira Barbosa foi abusado por Luiz Barbosa e Raimundo Nascimento; Fabiano da Silva Ferreira por Luiz Barbosa e Edílson Duarte; e Anderson Farias Silva por Raimundo Nascimento.

INDENIZAÇÃO

Na área cível, Fabiano Ferreira, Cícero Flávio e Anderson Silva entraram com uma ação por danos morais contra os ex-padres e a diocese de Penedo, uma vez que esta é a responsável pelo acompanhamento dos membros da Igreja Católica na cidade de Arapiraca. O valor pedido pelos ex-coroinhas é de R$ 3 milhões, mas, se depender do andamento do processo, é provável que ele não termine tão cedo.

A ação teve início na 6ª Vara de Arapiraca em 23 de janeiro de 2013 e até agora a única decisão concreta proferida pelo juiz Giovanni Alfredo de Oliveira Jatubá foi o de negar antecipação de tutela – liminar – para bloqueio de bens dos ex-padres. Isso ocorreu em 13 de março de 2013.

Entre as alegações do magistrado está a necessidade de que os autores da ação indenizatória provem a existência de bens em nome dos ex-sacerdotes. Também é possível ver no trâmite do processo, que não está em segredo de Justiça, que os réus – Luiz Barbosa e Edílson Duarte – não foram encontrados para receber intimação, logo no início do rito processual.

“A análise acurada dos autos permite verificar que os autores não indicam qualquer bem integrante do patrimônio dos réus, fato que impede qualquer verificação de valores por parte deste Juízo. Ora, cediço que a parte deve produzir a prova, não o Juízo. Quais os bens pertencentes aos réus? Onde estão localizados? São imóveis, móveis ou em pecúnia, no caso do último depositado em qual instituição bancária?”, diz o juiz. “Quando a decisão terminativa destes autos transitará em julgado? Será ela favorável aos autores? Não é açodamento interditar bens dos réus, sem a constituição do direito dos autores? Ainda. Tal indisponibilidade teria lugar caso algum ou os réus tivessem praticando atos tais como transferência de bens, alienando imóveis, mudando de domicílio, etc. que induzissem fraude à execução. Os autores não apontam nenhum desses atos por parte dos réus e, até que se prove em contrário, todos são pessoas idôneas sob o aspecto financeiro, todos se apresentam aptos ao crédito”, completa.

O juiz Giovanni Alfredo de Oliveira Jatubá destaca o fato de um dos réus ser a Diocese de Penedo.

“Pertencente à Igreja Católica, instituição milenar, estabelecida enquanto pessoa jurídica, sujeita de direitos e deveres. Ou haveria ameaça de tal Diocese ser fechada e se estabelecer noutro lugar? Há algum risco do Bispo da Diocese se homiziar a fim de fraudar, trazer prejuízo à instrução do presente feito?”, questiona o magistrado.

O titular da 6ª Vara de Arapiraca ainda critica o pedido de liminar dos advogados dos ex-coroinhas.

“Estabeleceu-se como práxis no meio dos advogados, a pugna por liminar/antecipação de tutela em toda e qualquer petição inicial, como a justificar perante a clientela a competência de seu trabalho”, afirma Giovanni Alfredo de Oliveira Jatubá.

E Deus deixou de existir…

 

Após o recente resultado favorável Fabiano Ferreira, Cícero Flávio e Anderson Farias no processo de pedofilia contra três ex-sacerdotes da Diocese de Penedo no TJ/AL, a Tribuna Independente traz, de forma exclusiva, entrevista com dois dos três ex-coroinhas com detalhes sobre o episódio que abalou o catolicismo alagoano. Tudo foi fruto de uma negociação difícil, até que dois dos personagens desse caso decidiram falar ao jornal. Foi preciso oito dias de intensa negociação para que eles se convencessem a falar à Tribuna.

No final, a reportagem percorreu cerca de 130 km até a cidade de Arapiraca, município onde todo o episódio veio à tona e onde moram dois dos três ex-coroinhas, até conseguir a entrevista. Cícero Flávio e Fabiano Ferreira souberam que a ação penal teve resultado favorável à acusação pela equipe de reportagem. Ainda ressabiados com a forma como muita gente os trata, ambos pediram para não serem fotografados, como forma de se preservarem e as suas respectivas famílias.

Anderson Farias, Cícero Flávio e Fabiano Ferreira, ex-coroinhas, em 2010, quando escândalo de pedofilia na Igreja Católica em Arapiraca estourou (Foto: Davi Salsa/arquivo)

De início, tanto Cícero Flávio e Fabiano Ferreira destacam o abalo na fé que sofreram durante os abusos e como eles lidam com Deus e a Igreja Católica. Ambos estão afastados da instituição religiosa.

Cícero Flávio, hoje evangélico da Igreja Quadrangular, deixou de acreditar em Deus. “Eu não acreditava mais em nada, a fé foi embora. Eu não acreditei mais em igrejas, católica ou evangélica. De 2008 a 2014 passei afastado de todas as igrejas, não tinha cabeça nem ânimo. Ao pensar em ir à igreja, ficava imaginando o que se passaria depois de tudo que aconteceu lá atrás”, relata. “Minha família também faz parte de igreja evangélica e depois a gente compreende que nossa fé não pode ser baseada em questão de igreja, mas em Deus. Mas de uma coisa tenho certeza: A Igreja Católica não faz mais parte da minha vida”, completa o ex-coroinha.

Já Fabiano Ferreira, hoje sem religião, diz que desde que os abusos vieram à tona ele se afastou da religião.

“Não tive mais coragem de entrar em nenhuma igreja. Não me sinto mais com estrutura para isso. Não tive mais contato direto com nenhum deles, até porque quando a gente se encontrava em algum lugar, eles não falavam conosco e, claro, que é muito difícil, para mim, entrar em um local e ser tratado com indiferença”, diz Fabiano, que ressalta quase ter sido tomado pelo vício. “Cheguei a procurar psicólogo e a flertar com alcoolismo. Não é vitimismo, é fato. Conseguimos chegar até aqui sem problemas psicológicos graves, graças a Deus”.

Dos três, apenas Anderson Farias segue católico. Ele não reside mais em Alagoas e, segundo Fabiano Farias e Cícero Flávio, mesmo que estivesse no estado não daria entrevista.

Cícero Flávio precisa deixar o local da entrevista devido a uma urgência em seu local de trabalho, mas antes de sair ele critica o papel da Diocese de Penedo – chefiada por dom Valério Breda – diante dos escândalos de pedofilia de padres sob sua tutela.

“O bispo da Diocese de Penedo, Dom Valério Breda, para mim foi a maior fraqueza que existe, sabe de tudo e acoberta tudo. É a pessoa mais fraca que conheci nesse episódio. E a turma dele que ainda comanda aí e acho difícil aparecer pessoas corajosas que façam o que fizemos. Por isso, Dom Valério segura essas pessoas”, acusa Cícero Flávio, que destaca o apoio que teve da imprensa, em especial do jornalista Roberto Cabrini, do SBT, e do senador Magno Malta (PR), que presidiu a Comissão Parlamentar de Inquérito sobre a pedofilia no Brasil em 2010.

“A Diocese de Penedo nunca prestou apoio, psicológico ou espiritual, ou pedido de desculpa. Não deram a mínima, fomos totalmente abandonados pela Igreja”, completa Fabiano Ferreira.

HOSTILIZAÇÃO

Fabiano Ferreira ressalta reações hostis de parte da população arapiraquense após a divulgação do vídeo em que os ex-sacerdotes Luiz Barbosa, Edílson Duarte e Raimundo Nascimento (falecido) têm relações sexuais com os ex-coroinhas.

“Já aconteceram várias vezes. Não foi uma, duas ou três, mas já chegaram a agredir a gente. Com palavras como ‘sua hora vai chegar!’, palavrões, empurrões em shows e eventos, em locais públicos e tal. Deu vontade de revidar, mas tive sorte de não ter me envolvido com essas provocações e ameaças”, comenta o ex-coroinha. “Acho que se fosse hoje, eu teria ido às vias de fato, coisa séria teria acontecido. Já o Anderson, que hoje é policial, sempre foi muito tranquilo, mas ele me contou que não deixou de ouvir coisas e continua católico”, completa Fabiano Ferreira.

“NINGUÉM VAI ACREDITAR”

Fabiano lembra que os padres sempre repetiam para ele – e aos demais – não contarem nada a ninguém, pois “ninguém iria acreditar”.

“Eles sempre diziam: ‘Olhe, não conte para ninguém que você sabe que eu sou como um pai para você. Se vocês contarem isso para alguém, eles não vão acreditar em vocês’. Se alguém conversar com um psicólogo, ele vai dizer que isso 10 ou 20 anos atrás é uma relação devastadora para uma criança ouvir”, diz o ex-coroinha, que destaca ter sido batizado pelo então monsenhor Luiz Barbosa.

“O poder da Igreja é pesado, até do pondo de vista de chegar e ameaçar. E isso mostra como eles são. Nosso processo Cível, por exemplo, não anda e a gente não sabe o motivo. Quer dizer, a gente sabe… Vários advogados desistiram da ação. Dessa forma, a gente vê o tamanho do poder que esse pessoal tem”, completa Fabiano Ferreira.

ABUSOS SEGUEM

Engana-se quem acha que após o escândalo envolvendo os três padres de Arapiraca, os casos de menores sendo vítimas de predadores sexuais dentro da Igreja Católica iria acabar. Ao menos é o que diz o ex-coroinha Fabiano Ferreira.

Mesmo sem citar nomes, ele garante que até hoje crianças e adolescentes seguem sendo vítimas de padres abusadores.

“Tantos anos depois e ainda continuam existindo abusos sexuais dentro da Diocese, com práticas idênticas [as feitas conosco]. O próprio padre Edilson Duarte afirmou na CPI, na época, na delação, existir outros abusos. Delatou o finado Raimundo e o Luiz Barbosa. Mas a gente sabe muito bem que têm outros que faziam e ainda hoje fazem os mesmos abusos. Isso mostra que não houve uma investigação séria na Igreja”, afirma “Acredito que continuam os mesmos abusadores da Diocese de Penedo ainda. Ao menos entre três e quatro, ou cerca de 10% de padres da Diocese. E esses caras estão por aí soltos”, completa.

Segundo apurou a reportagem da Tribuna, há na Diocese de Penedo há cerca de 60 padres.

De acordo com Fabiano Ferreira, o fato de as pessoas acreditarem “cegamente” nos padres garante a impunidade aos abusadores. O ex-coroinha ressalta que o caso de Arapiraca se tornou referência no país na área jurídica devido à “robustez de provas apresentadas” e que o caso é objeto de estudo por advogados de todo o Brasil.

FAMÍLIA

Se na cidade de Arapiraca – e posteriormente no país – o caso gerou uma repercussão sem precedentes, impactando a fé de muita gente e a forma como as pessoas passaram a lidar com os, hoje, ex-sacerdotes, dentro da família dos ex-coroinhas a reação foi ampliada à enésima potência.

“Fiquei uns três dias fora de casa por conta disso, mas a minha família me acolheu. Eu achava que não teria esse acolhimento depois da denúncia porque eles não acreditaram em mim antes. Mas fui acolhido e eles assumiram a bronca de forma irreparável”, diz Fabiano Ferreira.

A reação da família do ex-coroinha se explica pelo fato de ela ter a Igreja Católica como referência moral e espiritual, o que deu a esperança de ver um dos seus como sacerdote da Igreja de Pedro.

“Ser padre era uma coisa que dava orgulho na família. Eu mesmo tinha vontade, mas ao ver certas situações… Não é a mesma coisa que a gente pensava e até mesmo a confusão mental que vinha na cabeça: ‘será que todos são assim?’”, comenta. “Cheguei a revelar algumas vezes aos meus pais antes de estourarem os vídeos, mas eles não acreditavam por conta da figura irretocável que eles (padres) tinham”, completa o ex-coroinha.

A FILHA E O BATISMO

Se Fabiano Ferreira não é mais católico, sua família ainda segue nesta religião. Ao se tornar pai de uma menina, logo lhe pediram que a batizasse na Igreja a qual um dia foi coroinha. Ele não se opôs ao pedido, mas confessa ter se lembrado de tudo que sofreu dentro da instituição.

“Hoje, minha filha vai fazer dois anos de idade. A gente sabe que tem muita gente boa na Igreja e sabe do papel importante da Igreja Católica na vida das pessoas”, comenta. “Pintou, sim, um filme, alguma lembrança ao ver minha filha sendo batizada. Mas não cometerei o erro que meus pais cometeram comigo [olhos lacrimejam]. Minha mãe ainda tem fotos do meu batismo com o Luiz Barbosa e eu não consigo ver mais essa foto, é horrível. Darei o melhor exemplo para minha filha e acompanharei tudo o que ela fizer”, diz o jovem de 29 anos, depois das 22 horas numa rua de Arapiraca à reportagem da Tribuna.

Revelação e contradições: autos processuais expõem confissão de ex-padre

 

Nos depoimentos, padres negaram ter cometido abusos contra os jovens. Entretanto, Edílson Duarte confessou tudo à polícia, mas, depois, negou ao juiz da 8ª Vara de Arapiraca.

A Tribuna revela a seguir a maior parte do depoimento do ex-padre Edílson Duarte à polícia contido nos autos do processo judicial.

O advogado Thiago Mota negou que seu cliente tenha confessado algo à polícia. “Não há nenhum depoimento dele, perante a polícia, confirmando os abusos”. De acordo com ele, o ex-padre foi forçado a admitir os abusos na CPI da Pedofilia após ter sido ameaçado

de prisão.

“Há, em verdade, uma manifestação dele, durante a audiência da CPI, em que ele pergunta ao presidente o que precisaria confirmar para não ser preso, já que o estavam ameaçando. Ele só confessou perante a CPI. Depois de ter sido ameaçado de ser preso. O presidente da CPI, o ameaçava constantemente. Foi um ‘circo’”, afirma o advogado.

O argumento de Thiago Mota vai de encontro aos autos do processo recém-concluído no TJ/AL.

 

 

 

Dom Valério Breda: Igreja respeita decisão judicial

 

Responsável por guiar a Diocese de Penedo desde 1997, na qual está inserido o município de Arapiraca e mais de cinquenta paróquias em cidades alagoanas do Agreste alagoano, Dom Valério Breda, um italiano de voz mansa e de forte sotaque oriundo de suas origens, falou à Tribuna Independente sobre o resultado do julgamento no Judiciário alagoano que condenou recentemente três dos seus ex-padres no processo de pedofilia dentro da Igreja Católica no Estado.

Dom Valério Breda: apesar da mea culpa dos episódios, religioso garante que número de fiéis aumentou após escândalo (Foto: Reprodução)

Valério Breda ressaltou que respeita o resultado sem nenhum questionamento por parte da Cúria, mas lembra que os três ex-sacerdotes condenados já não faziam mais parte das atividades da Igreja quando o caso explodiu.

“Se a Justiça em Alagoas assim entendeu, naturalmente a Igreja, de modo particular a Diocese de Penedo, respeita o resultado do julgamento, porque entendemos que foram respeitados todos os ritos processuais, cabendo às respectivas defesas apelarem para as instâncias superiores, se assim couber”, avalia.

“Mas quero ressaltar que os sacerdotes envolvidos não tinham mais vínculos com a Igreja, até porque eles foram ‘dispensados’ das atividades eclesiais na época em que os episódios vieram à tona. Aqui eu quero, inclusive, explicar que não foi um a ‘excomunhão’, como muita gente definiu. Excomunhão tem outro conceito. Eles, em verdade, foram demitidos do estado clerical (não podem mais exercer o sacerdócio)”, esclarece Valério Breda.

Mesmo fazendo uma espécie de mea culpa, Valério Breda afirma que, mesmo com o triste episódio envolvendo sua Diocese, acredita que a Igreja sai ainda mais fortalecida, ao citar Jesus e Nossa Senhora como os sustentadores de um rebanho que não perdeu a fé.

“A Igreja, especificamente no rebanho eclesial de Arapiraca, onde os fatos ocorreram, diga-se de passagem, episódios trágicos no seio daquela comunidade católica, reagiu de maneira exemplar ao entender que os sacerdotes têm suas limitações humanas. E que o Cristo ou sua mensagem é maior que qualquer falha que tenha sido cometida por alguns sacerdotes. Quero ressaltar que, principalmente a juventude, entendeu que a mensagem do Cristo será sempre perene”, afirma o religioso.

“Digo mais: houve até um crescimento no número de adeptos na comunidade. Ou seja, um entendimento da mensagem cristã. Houve, inclusive, o aumento de grupos voltados à Nossa Senhora, ela que, com certeza, intercedeu para que a Igreja superasse aquele momento triste que, de certa forma, abalou a comunidade católica”, completa Valério Breda.

NOTA

Em 2011, logo após o resultado em primeiro grau da condenação dos padres, a Diocese de Penedo emitiu uma nota na imprensa na qual dom Valério Breda dizia que a Igreja “sente-se profundamente acabrunhada”.

“Encorajamos e apoiamos todos os esforços das Paróquias e Comunidades de nossa Diocese para promover arrependimento dos pecados, renovação dos costumes, reconciliação e cura espiritual. A segurança e a proteção dos menores que frequentam nossas Paróquias e Comunidades são prioridade absoluta e urgente. O Bispo diocesano, no âmbito de sua competência eclesial, se dispõe a sempre acolher e investigar qualquer acusação de condutas ilícitas contra menores, praticadas por membros do Clero, Religiosos/as, Leigos/as engajados nas Pastorais desta Diocese, a fim de tomar as providências cabíveis no foro eclesiástico e civil”.  Esse último trecho da nota emitida em 2011 é contestada pelos dois jovens e ex-coroinhas entrevistados pela Tribuna Independente.

No documento, a Diocese aponta que os padres já haviam sido julgados pela Igreja Católica “tão logo vieram a público as acusações, depois de entregues à legítima instância judiciária da Igreja junto à Santa Sé – Congregação para a Doutrina da Fé – já chegaram à sua conclusão”. O texto de Valério Breda também ressalta “desconcerto e vergonha pelos crimes odiosos perpetrados por clérigos, manifestando nosso apoio irrestrito às vítimas dos abusos e participação nos seus sofrimentos”.

Trauma fica para o resto da vida, afirma psicólogo

 

Pessoas abusadas sexualmente quando crianças tendem a guardar esse trauma mesmo depois de adultos. O resultado disso é que elas podem se tornar abusadoras ou superprotetoras, a depender de cada um e do contexto em que os fatos ocorreram. Quem explica os reflexos psicológicos que abusos sexuais em crianças podem gerar é o psicólogo Raffael Gonçalves.

“Crianças abusadas podem se tornar adultos abusadores, ainda mais se os pais não acreditarem em seus relatos, caso tenham tentado contar e também podem se tornar pais superprotetores e colocarem os filhos numa bolha”, explica o psicólogo.

Ainda de acordo com ele, não é comum crianças vítimas de abusos conseguirem seguir com as próprias vidas. Porém, aparentemente, Cícero Flávio Vieira Barbosa, Fabiano da Silva Ferreira e Anderson Farias Silva conseguiram. O caso deles, segundo Raffael Gonçalves, é excepcional.

“Eles são um ponto fora da curva por terem conseguido tocar a vida, estatisticamente falando. Não é muito comum ter essa superação por conta própria. Não é tão simples superar um trauma desses, ainda mais porque os padres são referências paternas”, diz. “Quando os pais não acreditam, a situação se agrava e amplia o questionamento na cabeça da criança. Uma coisa é o pai dizer que não há nada errado, mesmo sendo um absurdo, aí a criança entende que não tem problema. A questão é quando ele percebe que tem algo errado e os pais não falam, daí ela se questiona: ‘qual a credibilidade da minha fala? Vou ter de continuar me submetendo a isso?’”, completa o psicólogo.

Segundo Raffael Gonçalves, crianças vítimas de abusos sexuais podem se tornar antissociais e depressivas, além de se acharem perseguidas a todo instante.

“Muitos reflexos podem ficar nas crianças abusadas sexualmente, mas isso depende de cada um. Um quadro antissocial, depressivo pode se desenvolver. Ela pode achar que está sendo perseguida o tempo todo e que tudo pode voltar a acontecer. Se for vítima de uma pessoa próxima, pode desenvolver rejeição familiar e se isolar. Depende do contexto. Mas esse tipo de coisa marca para o resto da vida, independentemente de ter tocado a vida adiante ou não”, ressalta.

No caso concreto, por se tratar de crianças abusadas sexualmente por padres, Raffael Gonçalves diz que a relação entre agressor e vítima é parecida com a de pai e filho.

“O fato de ser uma figura paterna coloca questionamento na cabeça da criança, ainda mais com os dogmas da Igreja. ‘Como essa pessoa que deveria me proteger faz isso comigo?’ Mas esse questionamento só se dá quando a criança já está se desenvolvendo. Se for muito nova ela não tem essa sensibilidade. Não vai conseguir identificar o abuso”, explica o psicólogo. “Por isso os ex-coroinhas são um ponto fora da curva. Não é tão simples superar um trauma desses”, completa.

Quase 70% das vítimas de estupro são crianças e adolescentes

 

As polícias brasileiras registraram 49.497 casos de estupro em 2016. Mais da metade dos casos – 50,9% – teve crianças de até 13 anos como vítimas. Se se somar os 17% de vítimas entre 14 e 17 anos, os casos de menores vítimas de predadores sexuais chegam a 67,9%. Os dados constam no Atlas da Violência 2018, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP). Em Alagoas, de acordo com o documento, foram 500 vítimas.

(Foto: Ilustração)

Um detalhe: os casos apontados pelo Atlas – 49.497 –, registrados pelas polícias, são mais do que o dobro do que é atendido no Sistema Único de Saúde (SUS) no mesmo período: 22.918. Outro detalhe é que não há registro de estupro praticado por líderes religiosos, independente da religião.

O Atlas buscou os dados de subnotificação de casos de estupro nos Estados Unidos. Naquele país, somente 15% deles chegam de fato à polícia. Se a realidade brasileira estiver próxima da estadunidense, ocorrem no país cerca de 400 mil estupros por ano. Ou seja, 271.600 casos de estupro contra crianças e adolescentes – até 17 anos de idade.

Os dados do Ipea e do FBSP também apontam para alto índice de reincidência. Em 2016, 42,4% das vítimas relataram já terem sofrido violência sexual e, na maioria dos casos, os autores eram seus conhecidos.

DISQUE 100

Entretanto, dados do Disque 100, do Ministério dos Direitos Humanos (MDH), apontam para 291 casos estupro contra crianças e adolescente registrados no estado de Alagoas em 2017. Desses, apenas um teria como autor um líder religioso.

No Brasil, o sistema de denúncias e abertura de inquérito possui algumas falhas. Os casos chegam a delegacias de polícia, especializadas ou não, direto ao Ministério Público, aos conselhos tutelares ou a Varas de Infância e da Juventude. Situações que envolvem crimes virtuais são investigadas pela Polícia Federal. Ocorre que não há números consolidados da quantidade de denúncias feitas no país por nenhum desses caminhos.

As denúncias feitas pelo Disque 100 são encaminhadas a algum dos outros canais citados. Em 2016, foram 15.707.

Entretanto, informações sobre o que se fez com as denúncias que chegaram por esse caminho são falhas. As suspeitas são passadas individualmente para serem investigadas pelas polícias estaduais ou outras autoridades, mas não há uma regra que obrigue quem recebeu as denúncias a dar retorno. Segundo o MDH, o Disque 100 só recebe retorno dos encaminhamentos em 16% dos casos.

Casos de pedofilia na Igreja Católica se espalham pelo mundo

 

Os últimos 25 anos foram marcados por diversos escândalos de pedofilia cometidos por membros da Igreja Católica, inclusive anos antes de serem revelados. Os casos evidenciaram a falta de controle do Vaticano em relação a seus sacerdotes e a prática de acobertamento de seus bispos em todo o planeta.

Só para relembrar, um dos casos mais escandalosos foi o que envolveu o coral alemão de Regensburger, onde 547 crianças foram vítimas de abusos, incluindo estupro, de acordo com um relatório divulgado recentemente.

Desafio: chefe da Igreja enfrenta resistências internas (Foto: AP)

No dia 17 de agosto deste ano, após ser acusado pelo arcebispo italiano Carlo Maria Viganò, um ex-núncio apostólico em Washington, de acobertar abusos sexuais cometidos pelo cardeal Theodore McCarrick, o papa Francisco disse estar “triste” pela denúncia, mas “não pensa em renunciar” ao cargo. A declaração foi divulgada à ANSA por fontes próximas ao líder da Igreja Católica.

Naquele fim de semana de agosto, próximo à data na qual os três padres de Arapiraca foram condenados no Tribunal de Justiça de Alagoas, Viganò revelou uma carta de 11 páginas na qual alega que Francisco acobertou diversas denúncias de abusos sexuais cometidos por McCarrick, além de pedir a renúncia do Pontífice.

“Eu acho que Viganò quer limitar os dias deste Papa, ou pelo menos neutralizar a voz”, explicou o arcebispo norte-americano, Joseph Tobin. Além de Tobin, outros vaticanistas também acreditam que o documento tem o objetivo de atingir a reputação de Jorge Mario Bergoglio, alvo de críticas pela ala conservadora da cúria. O arcebispo italiano é conhecido por “exterminador de Papas” dentro do Vaticano e por ter cultivado desavenças foi transferido para os Estados Unidos. “Ele tem feito um serviço para os católicos”, disse o advogado Timothy Busch, membro do conselho que dirige o “National Catholic Register”, que revelou a carta de Carlo Viganò.

ACUSAÇÃO

Carlo Viganò diz que Francisco sabia, desde o início do seu Pontificado, que McCarrick era denunciado por abusos sexuais, mas permitiu que o sacerdote continuasse atuando. O prelado de 88 anos foi retirado do colégio cardinalício em julho, após ser acusado de violentar um adolescente há 45 anos, quando era padre em Nova York, e de foçar relações sexuais com seminaristas.

Carlo Viganò diz que alertou pessoalmente Francisco, logo após ele tomar posse, sobre a conduta de McCarrick. “O papa não fez o menor comentário sobre aquelas graves palavras minhas e não mostrou qualquer expressão de surpresa em seu rosto, como se ele já soubesse do caso, mudando imediatamente de assunto”, contou Carlo Viganò na carta de 11 páginas.

A denúncia contra Francisco veio em momento em que o papa pede desculpas públicas pelos casos de pedofilia na Igreja. Bergoglio esteve na Irlanda, país com um dos maiores escândalos de abusos, e afirmou que os crimes são uma “praga” que desafia a comunidade católica.

O papa argentino não quis comentar a denúncia de Carlo Viganò e limitou-se a dizer que a “carta fala por si só”. “Li nesta manhã esse comunicado. Digo sinceramente: leiam vocês atentamente aquele comunicado e façam o julgamento de vocês. Não direi uma palavra sobre isso. Acho que o comunicado fala por si, e vocês têm capacidade jornalística suficiente para tirar conclusões”, declarou o Pontífice a jornalistas durante sua viagem de volta entre Dublin e Roma, à época.

Na sequência, a Tribuna Independente traz mais casos de pedofilia cometidos por padres em todo o mundo.

 

ESTADOS UNIDOS

O jornal The Boston Globe, dos Estados Unidos, publicou uma série de reportagens em 2002 expondo o problema e a postura criminosa dos chefes da Igreja naquele país que não só acobertavam os assédios, como deslocavam os padres pedófilos por várias paróquias, aumentando a lista de vítimas.

Entre 1950 e 2013, a Igreja americana recebeu denúncias de cerca de 17 mil vítimas de abusos cometidos por cerca de 6.400 membros de seu clero entre 1950 e 1980. Em 2012, especialistas estimaram em 100 mil o número de crianças vítimas de pedofilia. Tudo foi revelado pela equipe de reportagem investigativa “Spotlight”, do Boston Globe.

As reportagens revelaram que um único padre – John J. Geoghan – estuprou ou molestou 130 crianças durante várias décadas, mas Law e outras autoridades o transferiram entre as igrejas ao invés de denunciá-lo às autoridades.

Um dos casos mais notórios envolveu o arcebispo de Boston, cardeal Bernard Law, que foi forçado a renunciar em 2002 por ter protegido padres pedófilos. O religioso morreu em Roma, no dia 20 de dezembro de 2017.

Em 2007, a Arquidiocese de Los Angeles, então liderada pelo cardeal Roger Mahony, concordou em pagar 660 milhões dólares para 500 supostas vítimas. Acusado de acobertar os padres pedófilos, Mahony foi demitido do cargo no início de 2013. O caso também foi revelado devido às reportagens do Boston Globe, que motivou outros jornais estadunidenses e apurar denúncias de abuso sexual cometidos por padres.

ALEMANHA

Desde o início de 2010, centenas de casos de abusos sexuais de crianças e adolescentes em instituições religiosas foram revelados.

Um dos casos mais divulgados foi o do colégio jesuíta Canisius, em Berlim, envolvendo cerca de 20 crianças.

AUSTRÁLIA

O número três do Vaticano, o cardeal australiano George Pell, foi indiciado em junho de 2017 por “delitos de agressões sexuais”. Não se divulgou informações sobre as idades das vítimas.

Pouco antes, ele havia reconhecido ter “falhado” ao lidar com os padres pedófilos no estado de Victoria nos anos 1970.

Segundo uma investigação pública iniciada em 2013, “7% dos padres seriam supostos autores” de abusos sexuais contra crianças na Austrália entre 1950 e 2010.

ÁUSTRIA

Após uma série de revelações no início de 2010 de casos de abusos sexuais e de maus-tratos por parte de padres entre as décadas de 1960 e 1980, uma comissão de inquérito é criada pela Igreja. Cerca de 800 casos foram identificados e 8 milhões de euros concedidos às vítimas.

Dois casos de particular impacto fizeram o Vaticano afastar dois prelados ultraconservadores: o arcebispo de Viena Hans Hermann Groër e o bispo de Sankt-Pölten Kurt Krenn.

BÉLGICA

Em 2010, o então bispo de Bruges, Roger Vangheluwe, renunciou após admitir ter abusado sexualmente de dois de seus sobrinhos.

Na sequência, milhares de testemunhos relataram casos de abuso sexual por religiosos belgas. Desde 2012, a Igreja da Bélgica já pagou 4,13 milhões de euros às vítimas.

CANADÁ

No final dos anos 1980, as revelações de abusos de crianças em um orfanato em Newfoundland (leste) nos anos de 1950 e 1960 provocaram um enorme escândalo. A hierarquia religiosa também foi acusada de não ter denunciado os casos de pedofilia em suas fileiras.

IRLANDA

Nos anos 2000, acusações de abusos sexuais cometidos durante décadas coloca em xeque a credibilidade das instituições católicas. Mais de 14.500 crianças teriam sido vítimas. Vários bispos e padres, acusados de esconder esses atos, foram punidos.

MÉXICO

Acusado de ter protegido um padre pedófilo, o monsenhor Gonzalo Galván Castillo, bispo de Autlan (oeste), é forçado a renunciar em 2015.

O fundador da congregação dos Legionários de Cristo, padre Marcial Maciel, foi forçado a renunciar em 2006, acusado de abusos sexuais e maus-tratos contra crianças.

HOLANDA

No final de 2011, um relatório revelou o caso de “dezenas de milhares de crianças” abusadas sexualmente dentro da Igreja católica holandesa entre 1945 e 2010. Cerca de 800 supostos autores foram identificados.

POLÔNIA

Em agosto de 2013, o polonês Jozef Wesolowski, núncio na República Dominicana, foi destituído. Uma investigação foi instaurada por causa de outro padre polonês, suspeito de crimes contra menores.

FRANÇA

Em 2016, o caso do padre Bernard Preynat, suspeito de ter abusado de cerca de 70 escoteiros, manchou a imagem do cardeal Philippe Barbarin, arcebispo de Lyon, denunciado por não expor os crimes.

Em junho de 2017, o ex-bispo de Orleans (centro), monsenhor André Fort, foi indiciado por não ter denunciado abusos sexuais contra menores. Antes dele, o monsenhor Pierre Pican, bispo de Bayeux, foi condenado a três meses de prisão com sursis, também por não denunciar os crimes à Justiça.

BRASIL

No Brasil, mais casos de pedofilia na Igreja Católica foram revelados nos últimos anos. Bonifácio Buzzi, de Mariana, interior de São Paulo, foi o único a ser preso definitivamente por abusar sexualmente de um menino de 10 anos. Em depoimento, a criança afirmou que o religioso praticou sexo oral nele e lhe deu R$ 5,00 para que ficasse em silêncio. Em outra ocasião, pagou R$ 3,00 para repetir o abuso. O padre foi condenado em 2004, ficou foragido e foi preso em 2007, após celebrar uma missa num asilo em Barbacena, interior de Minas Gerais. Ele cumpriu pena até 2015. Antes disso, foi condenado a 13 anos de prisão domiciliar em 1995 por abusar de dois meninos de 5 e 10 anos.

Em 2007, no Rio de Janeiro, o padre polonês Marcin Michal Strachanowski começou a trocar mensagens de tom sexual com um rapaz de 16 anos, segundo depoimento do próprio jovem. As investidas resultaram numa cena que um juiz descreveu como “masmorra erótica”. Essa expressão repercutiu mundialmente. De acordo com o relatório, de maio de 2010, em que se justifica a prisão preventiva do padre, o rapaz foi algemado numa cama na casa paroquial e Marcin Strachanowski fez sexo oral no jovem. O documento afirma que o padre “fazia uso de sua autoridade de sacerdote” e ameaçava o adolescente. O caso foi encerrado em novembro do mesmo ano e Strachanowski foi absolvido e retornou à Polônia. 

Em outra denúncia no Rio de Janeiro, em Niterói, o padre Emilson Soares Corrêa foi indiciado em 2013 pelo Ministério Público por abuso sexual de uma jovem de 13 anos.

Hollywood mostrou em filme bastidores de reportagens do Boston Globe sobre padres pedófilos nos Estados Unidos, estremecendo Igreja Católica naquele país (Foto: Divulgação)

 

 

 

 



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