Política

“Ninguém aguenta mais tanto roubo”, disse Geddel em ato contra corrupção


Redação
Fonte: Congresso em Foco

06/09/2017 10h10

Suspeito de ser o dono das malas recheadas com mais de R$ 51 milhões apreendidas pela Polícia Federal em Salvador nessa terça-feira (5), o ex-ministro da Secretaria de Governo Geddel Vieira Lima (PMDB), cujo apelido infância é "SUíno", participou de protestos contra a corrupção quando fazia oposição à ex-presidente Dilma. Em 16 de agosto de 2015, Geddel foi um dos 5 mil manifestantes que se concentraram na região do Farol da Barra, na capital baiana, para pedir a saída da petista.

“Chega, ninguém aguenta mais tanto roubo. Isso já deixou de ser corrupção. É roubo, assalto aos cofres públicos para enriquecer os petistas”, disse um exaltado Geddel em entrevista a uma TV. Na ocasião, ele disse que o país não suportava mais um governo tão incompetente. O peemedebista foi vice-presidente da Caixa no primeiro governo Dilma e ministro da Integração Nacional na gestão Lula.

A Polícia Federal localizou um “bunker” com oito malas e cinco caixas recheadas de dinheiro em um apartamento em Salvador atribuído ao ex-ministro da Secretaria de Governo. A ação faz parte da Operação Tesouro Perdido, desdobramento da Cui Bono. Ao todo foram contabilizados R$ 51.030.866,40, sendo pouco mais de R$ 8 milhões em dólares. Essa foi a maior apreensão em dinheiro vivo na história do país.

A descoberta complica a situação de Geddel, que está em prisão domiciliar na Bahia, acusado de obstrução da Justiça. O ex-ministro, que virou réu em 22 de agosto, foi denunciado por tentar atrapalhar as investigações sobre o desvios no FI-FGTS, o fundo de investimentos do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço, no período em que foi vice-presidente da Caixa. Segundo a acusação, ele tentou impedir o doleiro Lúcio Funaro de fazer delação premiada.

Em 3 de julho, o ex-ministro chegou a passar dez dias no Complexo Penitenciário da Papuda, antes de ter a prisão domiciliar autorizada. De acordo com nota do Ministério Público Federal, o objetivo de Geddel era evitar que Funaro e o ex-deputado cassado Eduardo Cunha (PMDB-RJ) firmassem acordo de delação premiada. O ex-ministro é acusado de oferecer vantagens indevidas, além de “monitorar” o comportamento do doleiro para constrangê-lo a não fechar o acordo.

“Agatunado”

O ex-ministro Geddel Vieira Lima, ex-braço-direito de Michel Temer que dava expediente na Secretaria de Governo da Presidência, foi pego mais uma vez pelas investigações da PF. Aos 57 anos, Geddel coleciona suspeitas. As últimas o deixam na mira da Lava Jato, que o investiga como beneficiário de propina das construtoras Odebrecht e OAS.

Quando ocupava o cargo de ministro, tinha foro privilegiado e os seus casos estavam sendo apurados pela Procuradoria-Geral da República.

Agora, sem o foro privilegiado, passam para a alçada do juiz Sérgio Moro ou de outro magistrado de primeira instância casos como o da pressão sobre o ex-ministro da Cultura Marcelo Calero, para liberar a construção de um prédio em Salvador, onde diz possuir imóvel que começou a ser construído em área tombada pelo patrimônio histórico.

O Tribunal de Contas da União também já investigou Geddel por desmandos no Ministério da Integração, cargo que ocupou no segundo governo Lula.

Geddel começou a carreira política cedo em Brasília, como assessor do pai, o ex-deputado Afrísio Vieira Lima, falecido neste ano. Com este “pistolão”, no começo da década de 1980 foi nomeado diretor do antigo Banco do Estado da Bahia (Baneb) pelo então governador Antônio Carlos Magalhães, de quem ele e a família eram aliados. Pouco tempo depois foi demitido pelo próprio ACM depois de ser acusado de repassar informações privilegiadas para investidores aliados.

Geddel respondeu processo na Comissão de Valores Mobiliários (CVM), mas o caso terminou arquivado pelo Banco Central. Os processos judiciais também não andaram. Depois disso, Geddel só ganhou poder. Junto com a família, rompeu com ACM e se elegeu deputado federal pelo PMDB. Em 1993 foi investigado na CPI que apurou o escândalo dos chamados “anões do orçamento” e acusado, junto com outros parlamentares, de beneficiar empreiteiras ao apresentar emendas superfaturadas ao Orçamento da União.

Chorou no depoimento à comissão e terminou escapando da cassação com a ajuda do então presidente da Câmara, Luís Eduardo Magalhães. Contra a pressão do pai, o filho de ACM cobrou em troca a lealdade de Geddel para suas pretensões políticas.

Alguns anos depois, o falecido senador produziu e exibiu vídeos sobre Geddel. Um deles, intitulado “Geddel vai às compras”, conta a história da compra de 12 fazendas e casas pelo ex-deputado em apenas um ano. Em outro, “O Agatunado”, o agora ex-ministro é acusado de façanhas com o dinheiro público. Na resposta, Geddel acusa ACM de ter tomado Viagra demais e Lexotan de menos. O antigo senador chegou a chamar Geddel de “ladrão” durante um depoimento prestado a uma das CPI que o investigava.

O bate-boca ferino é um das características do ex-ministro. Quando era líder do PMDB, em 2002, Geddel chamou o ex-presidente Itamar Franco, então governador de Minas Gerais, de “desleal” e “nômade partidário”. O mineiro respondeu chamando o baiano de “percevejo de gabinete”, “vendedor de sigla” e “anãozinho do orçamento”. A língua ferina Geddel continua se exercitando no Twitter, onde tem mais de 24 mil seguidores. Nesta rede social, não dispensa agressões e até xingamentos a mães de desafetos, como fez com o ator José de Abreu.



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