Turismo

Número de moradores de rua cresce e preocupa Igreja Católica


Marcos Filipe
Fonte: Redação

17/11/2017 12h06

Depois de denunciar as condições precárias do cemitério Divina Pastora, em Maceió, a Igreja Católica quer chamar a atenção desta vez para a situação dos moradores de rua na cidade. Última pesquisa realizada há quatro anos, apontava quase 200 pessoas estavam vivendo nesta situação, mas segundo dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) deste ano, o montante pode chegar a 7 mil.

Para debater a situação, a assessora da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) da Pastoral do Povo da Rua, irmã Maria Cristina Bove Rolleti, esteve em Maceió e conversou com autoridades, membros da Igreja e moradores que vivem no Centro da cidade.

“Essas pessoas precisam ser ouvidas, e a partir disso, políticas públicas devem ser criadas para atender a elas. Ninguém está na rua porque quer, mas existe uma história por traz, que a levou para essa situação”, disse.

Ela garantiu que os avanços na área ainda são poucos e a realidade dessas pessoas precisa ser exposta. “Na verdade, já alcançamos uma política nacional, contamos com um decreto que garante uma política. Porém a maior dificuldade está na efetividade dessas políticas, sobretudo no que diz respeito à habitação. Temos feito um debate em relação à proteção dessas pessoas.

Parece-nos que, para superar a situação da rua, temos de implantar uma política de habitação para todo mundo. Não é mais possível ver a questão da rua apenas a partir de uma ação imediata, que se dá de forma emergente. Necessitamos de processos que permitam às pessoas se fixarem no seu lugar. Somente a partir da habitação é possível ter trabalho e melhorar as condições de vida”.

Ela disse que a sociedade também precisa mudar a visão que tem dos moradores de rua. “A população da rua tem de dizer para a classe média que a reconheça como igual. Nós somos iguais, somos pessoas com os mesmos direitos. Temos um vídeo em que um deles diz ‘Eu respiro como você, não tenha medo de mim’. A sociedade tem de chegar à população de rua como alguém que está numa situação de miséria total, sem o mínimo necessário para sobreviver, porém é uma pessoa que tem sentimentos, que vive, que sonha e tem desejos. E descobrirá que não é violenta como se pensa”.

Com a presença da assessora foi dando o pontapé dos trabalhos da Pastoral do Povo da Rua em Maceió, ela terá como objetivo desenvolver ações que promovam a inclusão de projetos e promover ações, contribuindo na elaboração de políticas públicas, além de capacitar e formar agentes.

O coordenador das Pastorais Sociais da Arquidiocese de Maceió, padre Emerson José, falou o motivo da criação desse movimento. “Esse é praticamente o lançamento dessa pastoral. Poderemos a partir de agora, levar a vivência cristã a essa população abandonada É o rosto samaritano da nossa Igreja, dar voz aqueles que não têm”, disse.

Crismédio Neto, coordenador da nova pastoral lembrou a Semana Nacional do Pobre. “Um dia ímpar em vista que a Igreja convoca a todos para refletir esse assunto. Estamos aqui para debater sobre a pobreza e o sofrimento dessa população. Devemos cuidar da vida a partir das pessoas”, colocou.

 

Dados mostram população vulnerável em Maceió

 

Segundo o Movimento de População de Rua, não há números oficiais, mas a estimativa é de que mais de 4 mil pessoas vivem hoje nas ruas da capital. O último censo foi realizado pelo município entre 2007 e 2008.

Rafael Machado, coordenador do movimento disse que apesar da falta de estatística, são realizados 3.665 atendimentos a essa população, todos na parte baixa da cidade. “O restante não tem assistência”.

O atendimento é feito pela Secretaria Municipal de Assistência Social (Semas) e pelo Programa Consultório na Rua, da Secretaria Municipal de Saúde. A população de rua da parte alta da cidade, de acordo com ele, não está sendo atendida.

Rafael Machado cobra ainda a instalação dos chamados Centros Pop, local onde os moradores de rua dispõem de banheiro e alimentação, e a construção de abrigos.

“Em Maceió só existem dois Centros Pop, que não comportam todo mundo. Um fica no Farol, e só atende 20 pessoas por dia, e o outro fica no Poço e só atende 30 pessoas. A lei diz que cada centro deve atender 80 pessoas diariamente. Não temos segurança alimentar e os projetos que existem são assistencialistas, de pessoas que distribuem alimento para os moradores de rua”.

Além de cobrarem assistência psicossocial, eles relatam o medo diante da violência que enfrentem diariamente. “De novembro do ano passado para cá foram 29 assassinatos de moradores de rua em Maceió. Em janeiro desse ano foram 17 e de 1º de agosto até agora, foram registrados cinco casos”.

“Quando é entre eles”, afirma o líder do Movimento de População de Rua, “geralmente a motivação é o uso de drogas pela falta de assistência, mas quando não é, a gente não sabe a motivação porque os casos quase nunca são investigados”, diz ele, que morou nas ruas durante 14 anos, sofreu sete tentativas de homicídio, tem o corpo todo marcado pela violência e há três anos deixou as ruas.

Hoje, tem casa e trabalho.

Foto: Marcos Filipe


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