Turismo

Responder o Quê?


Carlo Bandeira
Fonte: Jornal de Arapiraca/ Editorial

25/11/2017 21h15

O que escrever numa hora dessas, onde tudo parece estar desdizendo o que era pra ser, e que parece não ser? Como explicar o que é justiça? Como dizer pra minha única filha como num planeta que é constituído por 90% de água, existe seca? E que mata! Olhar nos olhos dela e disfarçar que não estou com vergonha pelo mundo que estamos entregando a essa geração?

 Você pensa que não é difícil olhar pra frente e ver um mundo tão diferente daquele que poderíamos ter construído para a vivência, sobrevivência e a convivência deles, dos nossos filhos e filhas? O meu medo é se ela perguntar: painho, pra que ir pra escola? Pra que estudar? Quando a gente estuda aprende o que? Por que tem tenta gente dormindo na rua? E aquela fila, painho? O que tem aquela velhinha naquela cama que tem rodinhas, saindo daquele carro vermelho e branco? Agora é a vez do meu sobrinho, que está dentro do carro: tio, por que o menino pediu dinheiro pra tu? Chego ao trabalho: Doutor, a Previdência foi aprovada? Quanto tempo de serviço?

 E a terceirização? Vai ser bom? Final de tarde, no escritório ainda: será que a gente vai viver até os 140 anos, como afirmou o nosso presidente da República, o Temer? A saúde, como vai ficar? E o ensino gratuito, nas faculdades? As aposentadorias especiais vão cair? O militares, juízes, deputados, governadores, funcionários públicos, principalmente os do alto escalão, vão ter a mesma aposentadoria que a nossa? É verdade que o presidente não foi processado? Livrou-se da segunda denúncia, também? É verdade que o nosso judiciário está sendo observado pelo Tribunal Internacional de Justiça? É verdade que o Huck vai ser candidato a presidente?

 Saio do escritório, vou dar aula e volto pra casa, aí escuto uma voizinha: painho, porque você chega tarde em casa, cansado e sem vontade de brincar comigo? Toda vez é isso! - Minha filha, por que você não está na cama? -  Porque você ainda não me respondeu nada do que lhe perguntei. Para responder essas perguntas, primeiro temos que esclarecer duas coisas: a primeira é desmistificar os significados da palavra verdade e realidade. São duas palavras que sugerem, às nossas conclusões, o mesmo signo, o mesmo significado. Porém, aí mora o disfarce. A realidade é aquilo que é real, fato. E a verdade? É tudo aquilo que alguém quer que seja cumprido ou entendido. Entenderam? – Não! Responderam todos? “O homem caiu do prédio”. Realidade! “Mas bateu as asas e saiu voando”. Isso é verdade! A verdade de alguém! - Minha filha entendeu?  - Não painho! Então, daqui a alguns anos, painho vai tentar lhe explicar de novo, dependendo da realidade.

Porque as verdades são muitas, e todas em desfavor de algo, de alguém, de algum interesse que não seja o seu. Quando você crescer lhe explicarei com a calma que é necessária. A verdade de amanhã pode ser fruto da realidade de hoje, mas nunca será realidade. Quando o for, extinguiram-se as perguntas. E o que for pra ser, será! Por enquanto, podemos esperar as verdades vingarem. Ou entender que as verdade pertencem aos mais fortes. E a realidade pertence a nós, pobres mortais. Deus lhe abençoe, minha filha! E, que a paz e sua luz, nos ilumine e nos proteja a todos.- Papai, Deus mora aonde? - Minha filha, vá dormir!



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