Nacional

Quase metade dos jovens quer deixar o Brasil



21/06/2021 16h41

Segundo dados do recém-lançado Atlas das Juventudes e de novos estudos da FGV Social, a maioria dos cerca de 50 milhões de brasileiros entre 15 e 29 anos revela uma juventude decepcionada em níveis recordes, sem perspectiva de trabalho e insatisfeita com a condução do país.

Para piorar, quase a metade dos jovens, ou 47%, deixaria o Brasil. Justamente quando o país teria a chance de acelerar o crescimento contando com uma proporção inédita de pessoas em idade de trabalhar em relação a seus dependentes, como crianças e idosos.

E com a tendência de incertezas sanitárias e políticas, o cenário do mercado de trabalho para essa juventude configurará o desperdício do maior potencial histórico em termos de crescimento e produtividade brasileiros.

Números

A pesquisas quantitativas e qualitativas envolve, milhares de brasileiros entre 15 e 29 anos. E revela que nunca foi tão alta a proporção dos que nem trabalham nem estudam (há 27,1% dos chamados “nem-nem”) e que 70% dos jovens têm dificuldade de encontrar trabalho.

Na comparação com a maioria dos países da América Latina, é no Brasil onde os jovens veem menos chances de progredir trabalhando. Nesse sentido, mais da metade (51,9%) agora enxerga o Brasil como um país pobre.

O salto nessa percepção chega a quase 40 pontos desde 2014, quando o Brasil mergulhou numa recessão que se estendeu até 2016 —seguida de um período de baixo crescimento de 2017 a 2019 e da pandemia, a partir de 2020.

De 2014 a 2019, os jovens já amargavam um retrocesso trabalhista inédito. Enquanto outros grupos tradicionalmente excluídos (analfabetos, negros e moradores do Nordeste e do Norte) tiveram perdas de renda duas vezes maiores do que a média geral, ela foi cinco vezes mais forte para jovens entre 20 e 24 anos; e sete vezes maior para adolescentes que trabalham.

Com a chegada da Covid-19, a desocupação de jovens na faixa de 15 a 29 anos saltou de 49,4% para 56,3%.

Segundo dados do Gallup World Poll, a aprovação dos jovens brasileiros a respeito de como o país é governado despencou de 60,6% até meados da década passada para 12,1% mais recentemente. Na média mundial, a taxa tem se mantido próxima a 57% há quase dez anos.

Para Marcelo Neri, diretor da FGV Social, as pesquisas mostram que os jovens brasileiros ainda vivem um “paradoxo” —e que, no futuro, a frustração pode ser maior.

Pandemia

Segundo essas pesquisas e outros estudos de especialistas em trabalho e educação, a pandemia só agravou um cenário anterior de perdas seguidas, aprofundando as cicatrizes para atual “geração Covid” —como vêm sendo chamados os jovens afetados no período.

Há consenso de que o principal efeito negativo da pandemia se deu na educação, apartando os jovens do ensino (sobretudo no setor público) por quase um ano e meio.

Trabalhos internacionais consagrados estimam que cada ano a menos de estudo de um jovem pode representar perda de 10% a 15% em sua renda futura.

Segundo cálculos dos pesquisadores Ricardo Paes de Barros e Laura Muller Machado, do Insper, as perdas futuras para o conjunto dos brasileiros nos ensinos fundamental e médio atingirão R$ 700 bilhões e poderão chegar a R$ 1,5 trilhão caso as aulas não voltem em 2021, mesmo que parcialmente.

O cálculo leva em conta que, na média, os jovens brasileiros de todas as classes sociais que finalizaram o ensino médio acumulam rendimentos de aproximadamente R$ 430 mil ao longo da vida ativa.

Fonte: É assim



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